5.11.09

A ESCRITA DA CHUVA



A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve. 
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras. 
Quem  sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez? 
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.

Licínia Quitério

29.10.09

NA ARESTA DA ÁGUA



Na aresta da água o canto dos corais.
Insone este mar de náufragos.
Na órbita dos barcos tudo é lume.
Desapossados do beijo das estrelas, 
na praia nos quedamos e bebemos
azul em lâminas de sal.
Dói-nos a espada da infância sobre o ventre
e um menino lança contos de encantar.
Sobre o mar. Sobre a legenda do mar.

Licínia Quitério

20.10.09

DESCALÇA VOU



Descalça vou pelos trilhos do sempre.
Levo na boca a aspereza das amoras
que os melros rejeitaram.
O meu bordão é de oliveira
e não floriu ainda.
Um passo é só um passo e a rocha é quente.
Os latidos dos cães  me dizem a distância
e eu vou, descalça e firme e sequiosa.
Os adivinhos me dirão
a lonjura da fonte e a cama do ocaso.
Se me perguntam quem me doou 
este manto de espuma e a verdura do olhar,
respondo:
Quem me fadou assim, descalça,
a desvendar a estrada?


Licínia Quitério

7.10.09

SUAVE A CHUVA

.



A chuva cai e eu sou uma frase que experimenta voar.
Lágrimas de deuses aprisionados nas nuvens.
As oliveiras tremem e o violoncelo chora no leito dos amantes.
Como se não houvesse barcos para o amanhã e o teu rosto
fossem as últimas maçãs do ramo. Suave a chuva.
A liquidez da tarde e eu esquecida do estrépito da escrita.

Licínia Quitério

29.9.09

OUTONO


É o Outono, dizem, este arrepio das ervas rasando-nos o corpo.
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque  na queda dos  frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.

Licínia Quitério

23.9.09

NENÚFARES




Vêm dos fundos e repousam os braços na finíssima linha de água. Florescem e perduram com pétalas de porcelana. Têm pequenos estremecimentos acompanhando os remoinhos súbitos que o vento traz. Oferecem conchas e abraços aos peixes coloridos. São a tentação das libelinhas rasantes que lhes afagam as folhas. Pacientes, procuram a quietude, o sono de vestais no templo. Respiram a bruma do lago e transpiram gotas reluzentes. Quando os vemos nos quadros sabemos que nos escutam os silêncios. Falo de nenúfares. Ou de antigas esperas.

Licínia Quitério

19.9.09

NÃO SE MEDE ESTA FORÇA


Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.

Licínia Quitério

9.9.09

OS CAMINHOS VELHOS

Envelheceram as bermas dos caminhos.

Sombras, muitos risos fugidos do amanhã.

Por dentro do meu peito voam pássaros,

redondos pássaros de redondos cantos.

Levo-os a visitar caminhos de ontem.

Liberto-os no deslumbre do ribeiro.

Voltarão ao ninho, ao coração da frágua.

O sol a pique na queima da memória.

E a água em seu labor, criando o verde.


Licínia Quitério

1.9.09

ENQUANTO O LOBO

Enquanto o lobo não chega
com o tempo atado nas goelas,
vigiamos a escuridão e os sinais
de luz nas matas sonolentas.

Quem sabe, vaga-lumes esquecidos
das infâncias, ou o sabor do pão
das mães a iluminar a fome.

Indistintos contornos de meninos
perdidos ou de mulheres insanas
com breu e oiro nos cabelos.

É a lua, dizem, que nos solta
da raiva primitiva dos presídios
e nos ensina o uivo disfarçado
no vai-vém incansável das marés.

Luar de fel por vezes, solitária luz.
Por entre os dedos fios de amor
escondido sob o adro de lajedos.

Luar de mel, também, na berma
clara de um caminho novo,
na trama de uma manta de segredos,
na média noite sem grades e sem lei.


Licínia Quitério

26.8.09

O POEMA


Que te posso dizer daqui da beira-mar
se não anunciar que o poema nasceu?
Uma batida incerta a querer romper o peito,
uma breve tontura, uma agonia quase.
O mar vizinho, sempre inconformado,
apertado entre os céus e os fundos abissais.
O cheiro intenso a peixe, a náusea do que fomos,
a seduzir os braços do poema.
Ele aí vai, a roçagar escamas de luz,
febril, bamboleante, ébrio de sons,
ensaiando o nome do silêncio,
na estrada atapetada de algas e de búzios.
Em eterna vigília ficará, te digo,
o poema nascido à beira-mar.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

 
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